Como surgem os reinos: o alvorecer de Isenna

Numa data imprecisa – suponhamos que entre os séculos III e IV – uma tropa romana cai em batalha contra um inimigo até então desconhecido.

Pressionados em um dos inúmeros passos de montanha dos Pirineus, indo em direção à Península Ibérica, os soldados romanos são atacados por um grupo do qual praticamente não se tinha conhecimento. Um ramo um tanto isolado dos godos, com seus cabelos orgulhosamente trançados, seus pendões em forma de serpente e seus escudos ovais. A batalha é cruel, as flechas cortam o céu enquanto as tropas se chocam e o sangue derramado pelas espadas pinta de carmim o branco da neve pirenaica. Cercados, os romanos batem em retirada, obrigados a procurar outro caminho para a Ibéria. De volta à segurança, os sobreviventes contam que aqueles inimigos eram duros como o ferro que abundava naquelas montanhas.

Aquele povo era mesmo de ferro. A pequena tribo defendia-se e expandia-se com ferocidade, estabelecendo-se por toda a área. Depois da fatídica batalha (fatídica para os romanos), ficou claro que aquele povo não devia ser tratado de forma tão displicente. Os dias foram passando, tornaram-se meses, depois anos, e a pequena tribo tornava-se um importante centro fronteiriço. Cristãos, Arianos, Visigodos, Romanos… apareciam todos por ali, para comercializar víveres e especialmente armas. Logo, aquela região era conhecida como Ferraria Pirenaica pelas legiões. Já seus habitantes, buscando também no ferro as raízes de seu nome, preferiam um termo que sorvia mais das línguas germânicas, Isenna.

HISTÓRIA

No Século V, a região dos Pirineus, entre a Espanha e a França, era um caldeirão de culturas. Os romanos da Hispania, agora sob o domínio do Reino Visigodo de Toledo, experimentavam uma miscigenação cultural à medida que compartilhavam costumes com os visigodos.

Diferentemente do conceito comum de bárbaros, o povo visigodo havia entrado pacificamente no Império Romano séculos antes, buscando se proteger dos perigosos Hunos, que vinham das estepes do leste. Na Península Ibérica, os visigodos se tornaram federados a Roma, fornecendo tropas e ajudando na defesa das áreas ocupadas. Em 476, com a deposição de Rômulo Augusto, último imperador, as praças visigóticas passam a ser consideradas um Reino Independente.

À medida que influências visigóticas e romanas se sucediam e se misturavam, surgia uma nova cultura, com elementos comuns a ambos. Os cristãos eram divididos primariamente em dois grupos. Os católicos, fieis a igreja romana, e os arianos, seguidores de um movimento cristão não-trinitário.

BIBLIOGRAFIA

KULIKOWSKI, Michael. Ethnicity, Rulership and Early Medieval Frontiers. In: Borders, Barriers, and Ethnogenesis: Frontiers in Late Antiquity and the Middle Ages. Turnhout: Brepols Publishers, 2005.

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