Uma sorte de ratos

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Grupo de mendigos implorando por esmolas (xilogravura do final do século XV), Fonte.

Era noite e estava escuro, não havia naquele estreito uma só chama que iluminasse o lugar. Só se via a diferença entre as trevas das sombras e a sombra de Clemente, que perambulava nas ruas a procura de uma migalha de pão que fosse, restado ou caído de uma mesa da feira que ocorrera ali mesmo pela manhã daquele dia. Encontrando apenas alguns restos de maçã já devorados por um rato, talvez, alegrou-se por saber que não dormiria como no dia anterior, sem ter comido absolutamente nada.

Ora, Clemente, de apenas dezessete anos de idade, era tal como os ratos, um verdadeiro comilão de quase tudo. Diga-se comilão por razões de, quando se tinha um prato de comida, devorava-o em menos tempo que um porco leva para correr até suas bolotas – sua comida -, mas, coitado, há dias não tinha em sua frente um prato de comida cheio.

Clemente vivia numa antiga capelinha abandonada depois da construção de uma igreja em um campo próximo. Recebia ajuda de um camponês que, dando-lhe um prato de comida, dava-o também ferramentas de trabalho para capinar e soar sob o sol do verão e ser digno de o que comia. Clemente era um pobre medieval, as vezes doente, as vezes sadio, as vezes trabalhando, as vezes recebendo doações, mas sempre catando.

A pobreza na era Medieval não é muito diferente da pobreza antiga, ou atual. Na verdade, existia uma certa irrelevância social grande, mas não eram completamente esquecidos. Os pobres constituíam boa camada social nas cidades e nas vilas. A pobreza estava ligada a diversos fatores, tais como a fome, a falta de saúde e também o próprio desemprego, pois quem não tinha ofício, não comia. Havia doação dos cristãos, pois a Igreja se preocupava com os pobres, fazendo até grandes reuniões – os chamados Concílios – para discutir a distribuição de alimentos aos pobres. Mas infelizmente isso não era o suficiente. Por não ter como criar, muitas vezes, pais abandonavam seus filhos nas portas das igrejas e conventos ou os instruíam ao trabalho muito cedo. A doença era muito presente, fator causado pela má alimentação e pelas faltas de vitaminas, já que frutas, legumes, grãos e  carnes num só prato era coisa unicamente de gente rica. Engraçado, nosso prato de arroz, feijão, carne e verdura era o sonho de consumo diário de uma pessoa que não necessariamente era pobre, mas que também não era rica! A má higiene também ajudava no processo de transmissão de doenças (já que não existiam antibióticos eficazes para fazer, por exemplo, com que as bactérias da terra não se tornassem um problema junto com algum vírus já transmitido), o que fazia as pessoas debilitadas e incondicionadas ao trabalho. E como já foi dito: quem não trabalha, não come.

E você, consegue perceber as semelhanças e as diferenças entre a pobreza medieval e a atual?

Bibliografia

MOLLAT, Michel. Os pobres na Idade Média. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

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