O Brilho de Bizâncio

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O Imperador Bizantino. Imagem por Erison Silva

—Clemente, ainda estás a dormir? – Disse o velho Gregório, padre do lugarejo, acordando um dos que dormiam na antiga capela. —Andai, que já vem o sol e a labuta te aguarda.

O rapaz levantou-se e após praguejar algo em voz baixa, seguiu seu caminho pela rua, decerto faminto. Gregório seguiu seu caminho de volta para a igreja. Empurrando a pesada porta e entrando pela nave, trouxe consigo a leve brisa do amanhecer, que fez tremular a cortina e as chamas das velas no altar. Era um ambiente bem-cuidado, com seu altar de pedra coberto por tecidos de púrpura, e aparamentado dos materiais ricamente decorados. Ali se misturavam exemplares de ícones visigóticos, ricos em gravuras e pedrarias com os que haviam vindo, décadas ou mesmo séculos atrás, da capital do agora distante Império de Constantinopla. Estando os dois impérios em rota de colisão, para Isenna viera apenas um restinho do brilho de Bizâncio, que tanto influenciara os visigóticos em sua arte.

O Padre Gregório via aquela riqueza e não compreendia o que levara os bizantinos à iconoclastia. “Se a obra é feita para a glória do Pai, ela há de ser boa”, pensava. Para ele, os bizantinos haviam se tornado cristãos que cultuavam de uma forma estranha.

Diferente do Império Ocidental, que se desagregou e cujas subdivisões deram origem a vários reinos de cultura mista romano-germânica, como por exemplo a nossa fictícia Isenna, o Oriente foi capaz de se manter no caminho traçado por Constantino muitos séculos após o colapso de Roma. O Império Bizantino, como ficou conhecido, manteve e ressignificou muitas práticas greco-romanas, aliando a estas o cristianismo, tão presente nos últimos séculos por toda a extensão do Império Romano. Tudo isto para manter a força do poder imperial diante das mudanças que o mundo sofria e dos novos reinos que surgiam. Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt contam que, dada a origem “mestiça” dos reinos ocidentais, os bizantinos não lhes deram muito cartaz, olhando para o ocidente com certo desinteresse.

E por algum tempo isto se refletiu no ocidente, que ainda encarava o Império com respeito devido ao sucessor de Roma, mas considerava este sem muito a dar nas formações dos reinos. No entanto, com o passar do tempo, ocidentais e bizantinos passaram a divergir mais e mais, política e religiosamente. O incidente dos iconoclastas, bizantinos que se recusavam a venerar ícones, e que chegaram a ter bastante poder em Constantinopla antes de ser sufocado, foi severamente criticado pela Igreja no Ocidente. O Papa e o Patriarca começam a se afastar. Até mesmo a língua do outro passa a ser abandonada e ignorada. Assim como o Padre Gregório, os clérigos do ocidente passam a ver os gregos como “cristãos duvidosos e de uma espiritualidade estranha”.

As invasões lombardas e Carolíngias na península itálica por exemplo, separam ainda mais Roma e Constantinopla, quando a segunda recusa o pedido de apoio da primeira, que recorre a Carlos Magno, oferecendo a ele o título de Imperador, ato que Bizâncio considera uma rebelião. O afastamento atinge a política, e o passar dos anos demarca a fronteira entre Ocidentais e Bizantinos. A separação definitiva ocorrerá em 1054, com o Grande Cisma do Oriente, e a partir daí, vai cada um para o seu lado. O intercâmbio nesta época, já está restrito praticamente ao comércio. Os venezianos, já estabelecendo-se como uma forte República Coroada Comercial, ficam um bom tempo ao lado dos bizantinos antes de virar-se para o ocidente, e com seu tino, mantém ativa ao menos a ligação mercantil entre ocidente e oriente.

Bibliografia

Dicionário Temático do Ocidente Medieval / coordenação Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt; coordenador da tradução Hilário Franco Júnior — Bauru, SP: EDUSC, 2006.

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